
Cap. 3 Quando menos se espera.
Poucos ainda sorriem e olham nos olhos. - Caio Fernando Abreu
Uma semana passou. Continuamos com a troca de olhares, mas jamais nos apresentamos. Não que eu não quisesse falar com ele, eu queria demais. Mas aquilo estava sendo tão bom. Aquela atenção-sem-afastamentos. Porque, no final, sempre acontecia isso. Fazia uma nova amizade, ficávamos inseparáveis e - como num passe de mágicas - a pessoa desaparecia da minha vida. E eu não quero mais isso. Não quero ser só mais uma coisa no monte de coisas que ele provavelmente tem. Agora, gosto mesmo é do silêncio. Mas, admito, os olhares me deixaram dependentes. É como se, no momento em que ele me olhasse, percebia que não era tão invisível, afinal. Pensava que, em algum lugar nesse mundo, alguém pode querer me olhar assim, pra sempre. As ilusões estavam pouco à pouco, crescendo em ritmo desordenado. Mas não me importava com isso, não agora. Mariana se acostumou a não falar mais comigo durante os olhares, fazia uma piada ou outra apenas para tentar tirar minha atenção, mas jamais conseguia. Até mesmo Pedro - o esportista - deixou de ser o foco principal. Não, agora ele era coadjuvante - substituto daquele garoto de cabelos bagunçados despreocupadamente.
Aula de química, tudo estava indo muito bem. Mariana brigava com a calculadora científica e eu ria do modo que ela falava, como se estivesse discutindo com uma pessoa. Até que o professor simplesmente diz: Formarei duplas. Mas o pior não foi isso. Quer dizer, professor nenhum nunca forma duplas decentemente, certo? Ele quer mesmo é nos afastar dos nossos amigos sem dizer descaradamente que é uma punição. Eu poderia me sentar do lado de qualquer um, até mesmo da menina obcecada por esmaltes que tinha cheiro de acetona, mas não. Ele escolheu exatamente a última pessoa que eu desejaria formar uma dupla. O menino novo.
Quando me dei conta, ele estava ao meu lado, perguntando quais exercícios eu preferia fazer. Pisquei duas vezes e sussurrei alguns números, sem olhar para o caderno. E foi aí que ele simplesmente… Começou a estudar. Aquilo foi como um balde de água fria. Nem mesmo uma apresentação, já que nem o nome dele eu sei. Ah, claro, eu encaro o garoto há uma semana e não sei o nome dele. Ótimo, Ana, além de tudo vai pensar que você é uma atirada! Comecei a fazer os exercícios antes que pensasse ainda mais sobre isso e acabasse me jogando pela janela ou algo parecido. De repente, ele apenas sussurrou: Ana, me empresta a borracha. Eu perdi a conta.
- Hã? - foi tudo o que consegui responder.
- A borracha. Me empresta? - Ele falou pausadamente, fazendo eu me sentir uma idiota.
- Ahn… Claro… Aqui. - Entreguei à ele, que voltou aos exercícios - Então… Como você sabe meu nome?
Ele me olhou de relance e voltou ao caderno: - Estudo com você há uma semana, como não saberia? Ah, e o meu nome é Daniel, só para no caso de você ainda não saber. - Sorriu olhando para baixo. - Sabe, você parece ser amiga daquela tal, como ela se chama? Mariana? É, acho que é isso. Será que você poderia dizer uma coisa à ela por mim?
Tudo passou a fazer sentido. Mariana. Ele gostava da Mariana. Eu era apenas a amiguinha boba que o ajudaria a chegar até ela. Fiquei invisível de novo.
Há 1 ano on 20 Maio
2011 @ 4:13pm
